Djavanear: Atravessando as obras de Djavan | Retratos e Canções
Djavan Caetano Viana, um dos artistas mais singulares da música brasileira. Dono de uma obra que atravessa gerações, o cantor, compositor, violonista e ex-jogador de futebol alagoano construiu uma trajetória marcada pela sofisticação musical, lirismo e uma capacidade rara de traduzir sentimentos complexos em canções atemporais.
Nascido em Maceió, Djavan iniciou sua carreira nos anos 1970, período em que a MPB passava por profundas transformações. Desde o início, sua música se destacou pela fusão de ritmos — samba, jazz, funk, música africana e elementos do pop —, criando uma sonoridade própria, difícil de rotular, sendo erroneamente muitas vezes interpretada como nonsense. Essa mistura, aliada à sua voz inconfundível, fez com que Djavan se tornasse referência dentro e fora do Brasil.
Ao longo de uma carreira que soma quase 30 discos, Djavan lançou inúmeros sucessos e consolidou uma obra coerente e diversa. Em seus 50 anos de trajetória artística, completados em 2025, conquistou quatro prêmios Grammy Latino. Nesta semana, aos 77 anos, segue ativo, criativo e plenamente relevante, celebrando seus 50 anos de carreira com a turnê “Djavanear – 50 Anos. Só Sucessos”, que percorre diferentes fases de sua obra, prova de que sua música continua em movimento, dialogando com diferentes gerações e atravessando o tempo com elegância.
Em comemoração dos 77 anos, separei sete músicas seguindo um critério simples: nenhuma delas figura entre as dez mais ouvidas do artista no Spotify, tampouco está entre os maiores números do YouTube ou associada a trends recentes nas redes sociais.
A ideia é propor um convite a um caminho alternativo para desbravar ainda mais a discografia de um gênio que vai muito além de seus grandes hits.
1# "Fato Consumado" — A Voz, o Violão, a Música de Djavan (1976)
Composição e arranjo próprios.
Fato Consumado conquistou o segundo lugar no Festival Abertura de 1975, idealizado pela Rede Globo. A partir daí, passou a ganhar reconhecimento nacional e chegou ao estúdio da Som Livre, onde gravou seu primeiro disco.
Produzido por Aloysio de Oliveira, o mítico produtor de Carmen Miranda e Tom Jobim, A voz, o violão, a música de Djavan (1976) apresentou um samba sacudido, sincopado e absolutamente diferente do que se fazia na época. Visto hoje, o álbum não marca apenas a estreia de Djavan, mas o coloca como figura incontornável na história da música brasileira.
O disco trouxe o “carro-chefe” Flor de Lis, que rapidamente se tornou um grande sucesso nas rádios. Além de Fato Consumado, o álbum revelou outras composições que conquistaram críticos e público, como Maria das Mercedes, Embola Bola e Para-Raio.
2# “Numa Esquina de Hanói” — Djavan (1978)
Composição e arranjo próprios.
Em Numa Esquina de Hanói, Djavan utiliza a capital vietnamita como um cenário simbólico, sem conexão direta com o espaço real. O título sugere um lugar distante e exótico, mas, na canção, essa “esquina” representa um estado emocional de confusão, solidão e desencontro. A letra é construída a partir de imagens fragmentadas e ambíguas, como em:
“Um é par de dois / Quer ver, verás / Irei a ti pra viver / Depois morrer de paz / Ou não / Quem saberá?”
Djavan, conhecido por em suas composições não oferecer obviedades, não fala em si de uma esquina, mas sobre um estado da alma, imerso em sua própria incerteza.
Sobre o álbum, este traz a canção Álibi, que na mesma época seria gravada por Maria Bethânia, tornando-se um enorme sucesso nacional. A música deu nome ao álbum mais vendido da carreira da cantora, Álibi (1978), e entrou para a história como o primeiro disco de uma intérprete feminina da música brasileira a ultrapassar a marca de 1 milhão de cópias vendidas. Outras composições do mesmo álbum também ganharam novas leituras: Dupla Traição, gravada por Nana Caymmi, e Samba Dobrado, interpretada por Elis Regina no Montreux Jazz Festival.
3# "A Ilha" — Seduzir (1980/1981)
Composição e arranjo com parceria de Luiz Avellar.
Lançado no início dos anos 1980, Seduzir marca um momento de maturidade artística na carreira de Djavan. O álbum aprofunda a fusão entre MPB, jazz, pop e música negra, com arranjos sofisticados e uma sonoridade mais atmosférica, onde o silêncio, a harmonia e o timbre têm papel central. A parceria com o tecladista e arranjador Luiz Avellar é fundamental para esse resultado, especialmente na construção de climas densos e emocionalmente carregados.
Em A Ilha, Djavan aposta em arranjos de cordas, percussão envolvente, piano de acordes levemente dissonantes e um violão caracteristicamente “djavanista”, conduzido por um vocal contido, porém profundamente emotivo. Tudo na faixa parece trabalhar a favor da introspecção e do desejo não realizado.
Na letra, Djavan utiliza imagens do mar para expressar distância emocional e frustração afetiva. Com o refrão: “Porque seu coração é uma ilha a centenas de milhas daqui”, sintetiza com precisão a metáfora central da canção. O coração do outro é comparado a uma ilha distante, estando inacessível, reforçando a sensação de isolamento emocional. Mesmo diante da beleza e da sedução, há uma separação que não se dissolve.
4# “Capim” — Luz (1982)
Composição própria; arranjos de Djavan, Banda Sururu de Capote e Moacir Santos.
Com o convite da gravadora CBS, futura Sony Music, Djavan embarca para Los Angeles para gravar Luz (1982), sob a produção de Ronnie Foster, um dos grandes nomes da música soul norte-americana. O álbum conta com a participação de Stevie Wonder em Samurai e reúne canções que se tornaram definitivas em sua obra, como Sina, Pétala, Açaí e Capim. O resultado é uma mescla sofisticada entre a musicalidade brasileira e as influências do jazz e do soul norte-americano.
Em Capim, o baixo pulsante, os arranjos de metais e os timbres de teclado sustentam uma canção que equilibra leveza sonora e densidade temática. A colaboração com Moacir Santos acrescenta complexidade harmônica e reforça o caráter reflexivo da faixa.
Quando Djavan canta “Jari não é Deus, mas acham que sim”, ele faz uma crítica direta ao Projeto Jari, um dos maiores e mais agressivos empreendimentos já realizados na Amazônia. Desenvolvido a partir da década de 1960, o projeto refletia o ideal desenvolvimentista da Ditadura Militar, período em que a modernização foi hiperbolizada e a natureza passou a ser tratada como mero recurso, matéria inerte a ser explorada.
Com planos audaciosos, incluindo o desmatamento de vastas áreas de floresta nativa, o Projeto Jari simboliza uma intervenção violenta do homem moderno sobre a natureza. Sua história é marcada por promessas de progresso que ignoram as realidades locais e resultaram em impactos ambientais e sociais profundos, tornando-se um exemplo emblemático da devastação da Amazônia.
Em Capim, essa crítica não surge de forma panfletária. Djavan a dilui em imagens naturais e poesia delicada, transformando paisagem em discurso e música em reflexão.
5# "Esquinas" — Lilás (1984)
Composição própria e arranjos de Jeremy Lubbock e Greg Phillinganes.
Com timbres marcantes de teclado e guitarra, além de um solo expressivo de saxofone, Esquinas revela um Djavan ainda mais introspectivo e sofisticado. A produção reflete a estética dos anos 1980, com arranjos bem definidos que criam uma atmosfera de contemplação e movimento, acompanhando o fluxo emocional da canção.
A faixa se destaca por ser a única dessa lista em que Djavan não assina os arranjos, delegados a Jeremy Lubbock e Greg Phillinganes. Atualmente, a música ganhou notoriedade ao ser sampleada pelo rapper BK na faixa “Só Eu Sei”, evidenciando como sua obra segue dialogando com outras gerações e linguagens musicais.
#6 “Mil Vezes” — Djavan (1989)
Composição própria; arranjos em parceria com Serginho Trombone.
Em Mil Vezes, Djavan explora a intensidade de um amor atravessado pela ausência e pela saudade. A base instrumental com bateria, violão, metais e o baixo marcante de Arthur Maia sustenta uma canção que cresce emocionalmente sem perder a elegância, equilibrando força rítmica e vulnerabilidade.
Lançado em 1989, o álbum Djavan ficou marcado como “o disco de Oceano”, sendo o seu maior sucesso da carreira. A faixa-título, incluída na trilha sonora da novela Top Model, impulsionou mais ainda sua fama. O álbum ainda revelou outras músicas de grande repercussão, como Cigano, Avião e Mal de Mim.
Ofuscada pelo impacto desses sucessos, Mil Vezes acabou ficando à margem do grande público. Ainda assim, a canção surge como um retrato fiel do Djavan desse período: emocionalmente exposto, musicalmente sofisticado e capaz de transformar espera, dor e desejo em música, sem excessos, mas com intensidade.
#7 “Limão” — Novena (1994)
Composição e arranjos próprios.
Aos 45 anos de vida e 20 de carreira, Djavan lança Novena (1994), obra que marca um momento claro de maturidade artística. Inteiramente composto, produzido e arranjado por ele, o disco consolida o trabalho com sua banda da época, formada por Paulo Calazans nos teclados, Marcelo Mariano ou Arthur Maia no baixo, Carlos Bala na bateria e Marcelo Martins nos sopros. O resultado é um álbum coeso, refinado e profundamente autoral.
Em Limão, Djavan transforma experiências simples do cotidiano em gatilhos de emoção e memória. Com o limão sendo o papel simbólico central.
“A virgindade verde se abre em gotas para encenar o sabor no teatro da boca”
Tendo como a descoberta do gosto se transforma em celebração da intensidade das pequenas experiências. Limão não é apenas uma canção sobre um elemento da natureza, mas uma experiência sensorial completa, além de uma música.
Infelizmente, o recorte precisou se limitar a apenas sete músicas. Uma escolha ingrata diante de uma discografia que é, do começo ao fim, uma verdadeira aula de lirismo, sofisticação harmônica e sensibilidade.
Djavan ensina não apenas sobre música, mas sobre escuta, tempo e afeto; sobre como observar o mundo com mais atenção e sentir a vida em suas nuances. Ficam muitas canções de fora, mas permanece o convite: seguir explorando, sem pressa, a obra de um artista que transforma som em experiência e emoção em permanência.
Viva Djavan!
Texto de Davi Almeida
Revisado por Fernanda "Ferbs" Pinheiro

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