Como THE BOYS se perdeu na própria piada? | REVIEW QUE NINGUÉM PEDIU

 Quando estreou em 2019, The Boys chamou atenção não por ser uma subversão de super-heróis. Até porque, convenhamos, isso é muito sem graça e completamente batido. Diferente dos quadrinhos de Garth Ennis, que de fato era apenas violência e perversão generalizada, a série era — além disso, também — uma subversão da própria realidade. Uma leitura muito exagerada dos acontecimentos políticos e culturais, principalmente dos Estados Unidos, usando super-heróis no lugar de figuras públicas, fossem elas políticos e/ou influencers.

Tá, isso, e uma sátira ao gênero de super-heróis na indústria. Mas, de novo: não uma subversão do conceito desses heróis, mas sim uma leitura deles como cultura na realidade.

E nas primeiras temporadas (pelo menos até meados da terceira), era não só engraçado, mas muito bem feito. É impossível não admirar, por exemplo, Anthony Starr por sua performance impecável como o Capitão Pátria, que, até o último segundo, foi o melhor de toda essa série, entregando um vilão tão patético e imprevisível que todos amavam odiar.

Todo o elenco, na verdade, merece elogios e deveriam cobrar um pedido de desculpas da produção que não os aproveitou o suficiente. Ao longo dessas 5 temporadas, o que iniciou como uma crítica aos universos compartilhados de super-heróis, se perdeu ao avistar dinheiro e mergulhou exatamente no que criticava, gerando 2 spin-offs (com mais dois a caminho) e substituindo tempo que poderia estar centrado no desenvolvimento de seus protagonistas, para preparar o terreno para outras séries. Este foi o maior defeito da 5ª temporada, que embora termine com um último episódio surpreendentemente bom, não explorou devidamente personagens-chave (e preferidos dos fãs), como o Leitinho (Laz Alonso), que é jogado de escanteio, ou o próprio Ryan (Cameron Crovetti), que simplesmente some.

No lugar, temos o retorno do Soldier Boy (Jensen Ackles) para a introdução de mais um novo artifício que serve de corrida maluca entre os Rapazes e o Capitão Pátria, assim como em todas as outras temporadas, e inventar uma repentina ligação profunda com a Tempesta, que olha lá, veremos se desenvolver melhor em Vought Rising®™, em breve no Prime Video!

Jensen Ackles interpreta nesta temporada um Soldier Boy completamente diferente em personalidade e motivação do que o introduzido na terceira temporada, simplesmente para servir às conveniências do roteiro (como os retcons em torno do V1 e de sua relação com Clara Vought) e, claro, como comercial ambulante da sua série spin-off — se você está achando minhas menções repetitivas, acredite, estou seguindo os passos do roteiro dessa temporada.

Se ligou em como é tosco? Principalmente porque não basta apenas cair na contradição, pior ainda é não aproveitar que caiu o suficiente. Gen V, que este quem vos fala particularmente não dava o braço a torcer, explora bem melhor toda a "corte marcial" imposta pelo Pátria nos Estados Unidos, fez um imeso esforço para se mostrar importante para a reta final de The Boys, e foi descartada sem cerimônia em uma cena de poucos minutos (e pior, foi cancelada).

No fim, a série se beneficiaria muito mais se não cedesse à tentação de capitalizar em cima de spin-offs. Dessa forma, talvez a vilanização de Willam Bruto (Karl Urban) poderia ser melhor explorada a longo prazo, assim como a emancipação de Ryan, na abandonada trama do cabo de guerra paterno do filho daquela que podia ter assombrado a narrativa com muito mais frequência, sem a necessidade da invenção de um personagem apenas para trazer Jeffrey Dean Morgan para alimentar referências ridículas à Supernatural

Nos quadrinhos, Bruto é o vilão final, e embora o mesmo aconteça aqui, este é um dos poucos casos onde o desenvolvimento foi melhor trabalhado na obra original que na adaptação. Principalmente quando a 4ª temporada deu o gancho perfeito para sua total vilanização.

Enfim, mesmo com todas as voltas (ponto que eu já havia criticado na resenha da última temporada), é incrível que o último episódio tenha conseguido amarrar os arcos de todos os personagens, com finais satisfatórios para todos. A não ser que você seja negro. Aí você não consegue sua tão trabalhada vingança, ou é permanentemente lobotomizada, ou morre.

Claro, é impossível falar dessa série sem comentar das bizarras coincidências com o cenário político MUNDIAL. Coincidência por dois motivos: a temporada foi escrita em 2024, muito antes de todos os escândalos do atual governo dos Estados Unidos; E porque, mesmo que fosse proposital, Erik Kripke e os roteiristas norte-americanos definitivamente não seguem Nikolas Ferreira no Instagram para escrever a Espoleta de forma tão certeira.

Ó Pai mostra o poder do televangelismo e a realidade política por trás das "Mega Churchs".
O personagem também é uma ótima adição à dinâmica da série, perfeitamente interpretado por Daveed Diggs (astro do elenco original de Hamilton e integrante da banda Clipping), que não foi nem um pouco desperdiçado e entregou até um numero musical.

A verdade é que, infelizmente, a série não é tão genial. O assustador é que o nosso mundo está bizarro, e isso daria (e acredite, dará) um texto à parte apenas sobre estas narrativas pseudorreligiosas e o modus operandi da extrema direita para manipulação de massas. Como sempre, nosso ponto persiste: ficção é espelho da realidade.

VEREDITO: ★★★

O final é decente. Poderia ter sido muito pior, porque de fato a série se estendeu e é impossível não se perder em si próprio quando uma proposta tão contida começa a ficar maior que seu próprio escopo, sem perspectiva real de fim. Muitas opções foram jogadas à mesa ao longo destes 7 anos, e claro que ao escolher um e descartar os outros, as opiniões se dividiriam. Mas a jornada valeu a pena? Com certeza. E é compreensível caso alguém esteja genuinamente interessado em Vought Rising (que vai mostrar a origem dos primeiros Super, nos anos 40) e The Boys... México? Produzida por Diego Luna e Gael García Bernal? É. Se perdeu.



Texto de Tiago Samps

Revisado por Fernanda "Ferbs" Pinheiro



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