Jon Bernthal não entende o Justiceiro.
Ontem (13 de Maio de 2026), foi lançado, como um episódio extra de Demolidor: Renascido, a apresentação especial do Justiceiro, projeto encabeçado pelo próprio Jon Bernthal para contextualizar o personagem que interpreta desde 2015 dentro da atual fase do UCM.
Com direção de Reinaldo Marcos Green (King Richard), a média metragem adapta pela terceira vez (ou quarta, já que a série solo do personagem arrasta isso por duas temporadas) a HQ Bem Vindo de Volta, Frank, e se afasta cada vez mais do que faz esse quadrinho se consagrar como um clássico definidor do Justiceiro.
Aqui, mais uma vez Frank Castle está aposentado, mas mais do que nunca atormentado pelo seu passado, mesmo que a vingança contra aqueles que massacraram sua família já tenha terminado. Ele enfrenta seu passado uma última vez para finalmente encontrar o real propósito da sua missão como o Justiceiro. E você pode pensar que um estudo de personagem escrito justamente pelo ator que o acompanhou na última década seria interessante e finalmente uma abordagem diferente do que foi feito nas últimas empreitadas, mas, no fim é um desperdício de tempo que sequer explora bem o dilema proposto, com diálogos terríveis, personagens cuja presença serve apenas para marcar cartela de referência e/ou preencher cota de elenco e, no máximo, uma cena de luta legal de se assistir, que não sustenta o projeto como um todo.
Para não bater em cachorro morto, nem entregar demais para quem ainda queira assistir a esses 50 minutos de puro nada, vamos mergulhar no que é Welcome Back, Frank, o gibi que tem sido exaustivamente usado como “base” do Justiceiro nos últimos 20 anos:
Escrita por Garth Ennis, o primeiro cara que virá à sua mente quando o assunto for histórias violentas (ele é o criador de The Boys, por exemplo), a minissérie publicada em 2000 mostra Frank retornando para Nova York para “voltar ao básico”. Sem todas as estripulias de suas aventuras de super-anti-herói, ele só quer se reconectar com seu propósito: combater o crime, da forma que só ele pode fazer. O dilema está nesse gibi, mas ele não é importante. Como o próprio Ennis diz: “Ninguém sabe melhor do que eu que tudo deve ser lido no seu contexto sociocultural apropriado. E as ações do pequeno hobby do Frank podem requerir algumas justificativas… mas só pra mongolóides […] [O que estou buscando nesse quadrinho é] entretenimento. Direto e simples. Não uma análise complexa das causas do crime, não um retrato de um homem trágico caindo em uma psicose assassina, nem uma exploração profunda de um vigilante ao longo dos anos. […] você pode curtir o Justiceiro de consciência limpa.” e sinceramente, quem tem o Justiceiro como personagem preferido com toda certeza não está atrás de nada mais profundo do que tiro e violência generalizada.
Mesmo quando o personagem é usado em como um comentário social, sempre é do impacto negativo do trauma de veteranos e da espetacularização da guerra, e o único momento que o Justiceiro de Jon Bernthal foi minimamente parecido com isso foi na sua primeiríssima aparição, em 2015, na 2ª temporada de Demolidor.
Não basta apenas repetir a mesma história toda vez que o personagem aparece, Bernthal tem feito questão de seguir o caminho oposto do que essa exata história se propõe: destacar as ações de um NÃO HERÓI (mas definitivamente não um vilão) que não precisa de motivos para fazer o que faz. De um lunático que gosta do que faz. De um personagem de princípios distorcidos, e que te graças a essas percepções distorcidas de justiça entrega um contraponto de personagens como o Demolidor, o Homem-Aranha ou o Capitão América que funciona como um ponto antagônico.
Em uma tentativa de adicionar camadas ao seu personagem, Jon Bernthal adicionou mais defeitos ao personagem que clama tanto lutar para que o estúdio respeite, com um especial que sequer faz questão de funcionar propriamente como uma continuação das produções anteriores do personagem. Sem continuidade musical na trilha sonora, sem contextualização do paradeiro do Curtis, reduzido à uma alucinação, e sem explicação ou conclusão da presença dos Gnucci, que são meramente um artifício de roteiro para proporcionar dez minutinhos de porradaria para realizar as fantasias de um público que não precisa de muito para interpretar os personagens de forma distorcida e usá-lo como discurso ou justificativas fascistas. Que, pasme, o próprio personagem se opõe em histórias contemporâneas, e esse especial também evita tocar no assunto, mesmo com a aparição anterior do personagem preparando esse terreno.
O Justiceiro não é um personagem complicado. Muito menos profundo. O público com quem ele conversa, embora precise de uns beliscões da realidade, não exige histórias profundas. E é a esse povo que Jon Bernthal pertence. Talvez Frank Castle só funciona como personagem de apoio de outros heróis. Talvez Bernthal só devesse parar de fazer birra quando outros roteiristas tentem algo diferente com ele. Não saberemos tão cedo.
VEREDITO: ★







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