O Mandaloriano: Era assim que deveria ser?

 

No distante ano de 2019, O Mandaloriano lançou no Disney+ semanas antes de A Ascensão Skywalker. Passaram-se 7 anos, diversas tentativas de novos filmes foram anunciadas para nunca mais se ouvirem falar delas. Agora, O Mandaloriano e Grogu chegaram ao cinema, mas alguma coisa ficou perdida lá atrás em 2019. Para entender, será necessário trilhar o caminho de Mandalore e ver onde (ou se) a história saiu do trilhos.

Mando no início da série é um caçador de recompensas que faz o trabalho, não tem problema em matar e não fala muito, basicamente a ideia criada pelos fãs do Boba Fett. Conforme o primeiro episódio se desenrola, mais camadas são adicionadas ao personagem que o faz se afastar de ser apenas um boneco, como o Boba Fett: ele é um caçador em dificuldades, possui trauma de infância, um desgosto por droids, aceita ajuda e, por último, se recusa a matar um bebê.

O segundo episódio quebra o personagem e o coloca em seu momento mais vulnerável (até então), e o terceiro testa seu caráter, o forçando a escolher entre sua moralidade e seu sustento/trabalho. O quarto episódio, curiosamente, testa suas convicções e seu dogma em relação a retirar ou não o capacete (dogma criado para série) enquanto continua mostrando a forma que ele trabalha bem com outros. A Criança, como é conhecida até aqui, é uma lembrança da franquia em si, mas também a forma de mover a série de local a local e testar as resoluções do Mando, o fazendo considerar coisas e depender de gente que ele não faria em outra situação.

O sexto episódio oferece um vislumbre da antiga vida do Mando, mostrando que o homem que começou a série já sofreu um desenvolvimento anterior, e mostra como sua vida atual e a de caçador de recompensas não estão mais em sintonia. As alianças feitas retornam nos últimos dois episódios, assim como a ameaça que os persegue é revelada. De repente, mas não tão repentinamente, a série planta sementes de Mandalore, das Guerras Clônicas e dos Jedi, abrindo o universo do, agora nomeado, Din Djarin mas o maior foco emocional do final, é Din deixar de lado seu problema com droids e a retirada de seu capacete.

A premissa e o estilo diferentes, além das novas técnicas maestralmente utilizadas por Greg Fraiser nos primeiros episódios da temporada, tornaram da série uma grata surpresa, diferente de tudo que havia sido feito antes na franquia.

Agora com uma nova premissa naturalmente definida (achar o "povo" da Criança), a temporada já começa com um desvio: Din quer achar mais Mandalorianos para eles dizerem onde achar um Jedi. Aqui começam os constantes Glup Shittos, o primeiro episódio é basicamente um filme (com direito a um segmento "em IMAX") sobre Cobb Vanth e, tangencialmente, Boba Fett. O terceiro é sobre Bo Katan e, tangencialmente, o Sabre Negro. O quinto é sobre uma Ahsoka Tano descaracterizada e, tangencialmente, Thrawn. E o sexto sobre o próprio Boba Fett. Ao menos, são os aspectos chamativos.

Mas a série em si continua sendo sobre Din e, agora, Grogu. Continuando enredos da primeira e principalmente, constantemente desafiando as noções do Mando sobre o que é ser Mandaloriano, ao ponto que ele ativamente tira seu capacete duas vezes por conta do seu desenvolvimento até então (e por seu amor pelo Grogu, mas isso tá incluído). Os últimos episódios tem callbacks dos últimos da primeira temporada, Gideon é capturado, Din agora possui o Sabre Negro e o objetivo principal é cumprido. A série parece ter chegado em um certo tipo de conclusão, mesmo com sementes para uma futura história.

A próxima vez que os personagens aparecem é, inconcebivelmente, numa outra série. O pior é que, o episódio de Mando em O Livro de Boba Fett, serviria perfeitamente como o episódio de abertura de uma nova temporada. Din retorna a vida de caçador, mas ele obviamente não está gostando; os conflitos internos de quem ele se tornou com sua vida de caçador o impedem de usar o Sabre Negro e; a decisão de retirar o capacete o faz ser excomungado da única família que lhe resta. Tudo um caminho natural do que havia sido construído até então.

Até aí, a conclusão é que Din agora terá de se reinventar, perceber os erros do culto em que ele foi criado, resolver seus conflitos para empunhar o Sabre Negro e descobrir o que fazer com esse novo homem que ele se tornou depois do Grogu.

Mas não. Grogu retorna. A terceira temporada começa reiterando o que foi dito no episódio de Boba, IG-88 é pseudo-ressucitado e piratas agora são um problema. A razão de voltar a Mandalore é para regredir ainda mais o personagem. Bo Katan está aqui para refazer seu mini-arco em Rebels, ao mesmo tempo que se recusa a lidar com a história da personagem em Clone Wars. Din e Grogu são passageiros de uma história que parece não ter nada a ver com eles: retomar Mandalore, um lugar que nenhum dos dois teve ou tem qualquer interesse. Para incluí-los na história, mais uma regressão: Gideon está de volta, mais caricato do que nunca.

Uma temporada sem foco, que ativamente evita tomar qualquer decisão que importe para os dois e desfaz as que foram um dia importantes (IG-88, Capacete, Gideon, Sabre Negro com Din, até o racismo contra droids do Din), e que tem o mínimo do personagem título para justificar essa história. Teria sido o medo da perda do Grogu pelo marketing? A falta do Pedro Pascal presencialmente? A perda de Greg Fraser? Muitas séries no Disney+? Impossível dizer com certeza, mas a metamorfose que a série sofreu a fez perder o que tinha de especial e se tornou apenas mas uma a contar "a história maior".

Os dois personagens terminam sem qualquer crescimento adicional e a história até então semeada está concluída (mais parece que acabou mesmo na segunda temporada), apenas dando indícios do que os dois poderiam estar fazendo para justificar futuras participações em outras séries. No fim, a futura participação foi o próprio filme.

Mesmo voltando a uma aventura mais contida, sem grandes repercussões, o filme continua a retroceder decisões importantes, a última que faltava, na realidade: a Razor Crest. A primeira metade do filme não tem tempo de fazer nada de interessante com os personagens, porque eles não são mais do que bonecos de ação. Porém, algo interessante acontece na segunda parte: os papéis invertem, e é Grogu que precisa salvar Din dessa vez. 

O segmento da criança cuidando do pai é o melhor do filme, pois é o único que de fato foca nos personagens títulos. A segunda parte flerta com algo que foi tocado no final da 3° temporada, que Grogu vai viver muito mais do que Din, mas depois que Mando fica bem... ele fala uma frase sem emoção e o filme volta a ser bonecos se batendo.

Talvez o mais frustrante seja a regra do capacete e ela ainda ter algum valor para Din, já que a terceira temporada também termina com a união de Mandalore e do culto com o resto do povo, ativamente deixando o dogma do capacete como opcional. A única coisa que de fato afetaria os personagens, não os afeta, talvez porque Pedro Pascal se tornou grande demais desde 2019, mas terminar a terceira temporada com Mando e Grogu relaxando em casa, algo semeado no quarto episódio da primeira temporada, com ele ainda de capacete, é o cúmulo. E o filme não muda isso, mesmo tendo a oportunidade de fazê-lo.

Aparentemente, os personagens não podem mais crescer (no caso do Grogu, nem fisicamente), não podem ir além do status quo. Parece que Filoni e Favreou acreditam que o que fez a série ser bem-sucedida foi a fórmula, e não a constante evolução dos personagens. A primeira série que tentou algo definitivamente diferente, agora se recusa a inovar. Há de se perguntar, se houver uma quarta temporada... sobre o que ela será? Será mais do mesmo? Um tie-in com Ahsoka? Ou algo realmente relevante para o Mandaloriano e Grogu?

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