A Sony finalmente acertou com SPIDER-NOIR! | REVIEW QUE NINGUÉM PEDIU


 O Homem-Aranha, no audiovisual, é filho de um divórcio, e sua guarda hoje é compartilhada. A Sony Pictures, com quem o herói mora, é a principal responsável por alimentar e vestir o filho que, só a cada 15 dias, passa seus fins de semana com a Marvel Studios.

Como a Sony e a Marvel lidam com essa coparentalidade é assunto pro futuro, até porque, no próximo mês, seu próximo projeto conjunto, Homem-Aranha: Um Novo Dia, chegará aos cinemas. Mas, por muito tempo, a Sony sozinha se mostrou perdida em lidar com uma franquia tão grande e rica quanto o Homem-Aranha, produzindo filmes solos de vilões que nunca tocavam no personagem, mesmo com este sendo o personagem que mais e melhor se justifica a existência de múltiplas versões alternativas simultâneas por conta do(s) Aranhaverso(s), um conceito que hoje está mais que popularizado entre o público.

Depois de 3 fracassos (Morbius, Madame Teia e Kraven, O Caçador) e uma trilogia muito medíocre do Venom, finalmente alguém inteligente pensou em fazer o óbvio: uma produção que DE FATO fosse sobre um Homem-Aranha.

E assim nasceu Spider-Noir: uma adaptação do Homem-Aranha Noir, que teve sua primeira minissérie em quadrinhos publicada em 2008 e serviu de estopim para um universo de novas reimaginações de heróis (como Demolidor, Homem de Ferro e até os X-Men), ambientado nos anos 30 com a estética, como o nome diz, Noir.

Como adaptação, essa série é uma negação. A história e a atmosfera são completamente diferentes, mas com certeza isso não faz dela ruim.

Na obra original escrita por David Hine e Fabrice Sapolsky, o jovem Peter Parker ganha seus poderes de uma entidade aranha mística após ser picado por uma aranha venenosa e usa seus poderes para buscar vingança contra Norman Osborn, O Duende, responsável pelo assassinato de seu tio Ben.

Aqui, além de mais velho, Peter não é Peter (e, aparentemente, fica muito bem nas entrelinhas a razão disso), mas sim Ben Reilly — nome que nos quadrinhos na verdade é adotado pelo Aranha Escarlate, clone do Homem-Aranha, que adota o primeiro nome do seu tio e o sobrenome de solteiro da tia May — e possui uma origem completamente reimaginada para seus poderes, que se liga não apenas com a primeira guerra mundial, que causou a grande depressão que assola a narrativa e justifica a estética, mas também amarra o enredo da temporada, onde o protagonista interpretado por Nicolas Cage deve assumir relutantemente a responsabilidade de ser o Spider para deter o vigarista Cabelo de Prata e seus super-capangas Flint Marko (Homem-Areia), Lonnie Lincoln (Lápide) e Dirk Layden (que todo mundo achou que seria uma adaptação do Electro, mas na verdade é o Megawatt, que teve uma mísera aparição nos quadrinhos lá em 1992 para nunca mais. E, sinceramente, isso é legal).

A história completamente original permite novas descobertas até para os fãs dos quadrinhos, que podem até não considerar melhor que a primeira versão, mas terão muita dificuldade de chamar essa comédia heroica de ruim. A personalidade mais cômica do personagem (assim como a escalação de Nicolas Cage no papel) é 100% derivada da versão do Aranhaverso do personagem, que por si só já é uma derivação bem diferente, mas igualmente cativante.

A veia cômica da série funciona tanto para a interpretação de Cage, quanto para todos os outros personagens, que divertem por conta própria e ajudam a sustentar a série, esteja você assistindo em preto e branco ou em cores. O verdadeiro significado de TANTO FAZ.

A série foi pensada para ser em preto e braco, sim, e é muito linda assim. Até porque, adiciona à proposta do universo Noir. Mas a versão em cores em nada perde em qualidade e muito menos em imersão (principalmente quando lembramos que os quadrinhos da Marvel Noir já eram em cores lá nos anos 2000 e foi só o desenho Ultimate Homem-Aranha de 2012 que imaginou esse universo em preto e branco pela primeira vez). Parece, na verdade, que momentos da série foram pensados especificamente para o preto e branco, e funcionam melhor desta forma, e outros momentos vão te chamar para assistir em cores, e ao observar a cena nas duas opções, é claro que o raciocínio inverso foi aplicado ali. E está tudo bem, porque a série é tão divertida que o fator replay não será um problema.

Ainda no que constrói a atmosfera, a trilha sonora de Kris Bowers (Bridgerton, Robô Selvagem, Invasão Secreta), com uma música original co-composta por Michael Dean Parsons para ser cantada por Li Jun Li (Pecadores) e a música de abertura cantada e produzida por KIRBY (que escreveu FourFiveSeconds de Kanye West, Rihanna e Paul McCartney), cai como uma luva tanto no mistério de detetive/jornalístico quanto na ação de super-herói.

VEREDITO: ★★★★

Divertida, cheia de personalidade e com a melhor adaptação de um Peter Parker de meia idade (ao ativamente não tentar fazer um Peter Parker), Spider-Noir é uma surpresa agradável que traz novos ares ao Aranhaverso live-action da Sony, que acerta pela primeira vez em um spin-off do Homem-Aranha que, de alguma forma, demorou uma década para pensar em usar o (ou um) Homem-Aranha. Fascinante.

Ah, e não será a última vez que falaremos de super-heróis reimaginados em estética Noir esse ano! A 2ª temporada de Batman: Cruzado Encapuzado teve recentemente sua estreia marcada para mês que vem, também no Prime Video.


Texto de Tiago Samps
Revisado por Fernanda "Ferbs" Pinheiro

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