Quentin Tem Que Morrer: Quando a homenagem dá certo (até demais) | REVIEW QUE NINGUÉM PEDIU
Quentin tem que morrer, de Samuel Cardeal, conta a história de um jovem rapaz chamado Quentin, que trabalha em uma locadora e vive uma vida bem mediana até começar a ser perseguido por assassinos por um motivo desconhecido a ele. A proposta de Samuel com este livro, segundo as palavras dele próprio no prefácio, é homenagear o cineasta Quentin Tarantino. É justo começar dizendo que eu não sou fã do Tarantino, então eu sei que o público-alvo desse livro não sou eu...
E quero que vocês tenham isso em mente quando eu digo: eu odiei esse livro. Não por ser ruim, porque ele é muito bem escrito; não por ter uma história sem graça, porque, de certa forma, me prendeu. Eu odiei porque é MUITO Tarantino. Desde o início, o protagonista já não me fisgou muito. Primeiro por ser homem — e eu pratico misandria esportiva nas mídias que consumo —, mas, principalmente por ser um homem extremamente coitado, sem namorada, sem grandes conquistas na vida e extremamente medíocre. Eu li o primeiro capítulo e precisei de alguns meses pra me acostumar à ideia de ler uma história inteira com esse cara, mas decidi dar uma chance.
Então esse fracassado que nunca fez nada na vida começa a ser perseguido por assassinos de elite. E aí que entra o meu pior defeito: eu me deixo levar muito pela curiosidade. Tipo, muito mesmo, a ponto de assistir à novelinha de tiktok desde antes de viralizarem e ler umas fanfics muito mal escritas de apps que você precisa assistir a 30 anúncios pra desbloquear o próximo capítulo. Dito isso, eu fiquei em polvorosa querendo descobrir por que tanta gente estava atrás desse moleque aleatório. É claro que isso só é revelado ao final do livro (e eu não vou contar o final), mas ao longo da história tiveram outros elementos que me prenderam. Me apeguei muito ao tio escroto levemente homofóbico do Quentin, por exemplo. Esse velho era muito foda. Eu leria um spin-off só das aventuras dele, de verdade (não que isso precise ser escrito).
Outro ponto da história que me prendeu bastante foi o quarteto de mercenárias que vem ajudar o Quentin em determinado momento da história. Óbvio que houve algumas cenas em que Quentin sexualizou suas colegas (não seria uma história Tarantinocore se não tivesse sexualização de mulheres), mas, ao contrário do cineasta, Samuel expandiu suas personagens femininas para além do protagonista. Elas possuem cenários variadíssimos, personalidades bem diferentes entre si e, principalmente, uma motivação própria para ir com Quentin atrás de seus algozes: vingança. O que é ótimo, porque eu jamais compraria que essas mulheres bem construídas ajudariam esse podólatra aleatório que uma delas catou na rua apenas da bondade do coração delas.
O arco de desenvolvimento de Quentin não me pegou muito, mas também não me parece ter sido intenção do autor que esse arco pegasse alguém. Ele próprio menciona que o livro é só uma obra descontraída pra ver sangue, lutinha, porrada e afins. Mas é foda que o Quentin foi de um merdinha trabalhando numa locadora de bairro a um serial killer que acha muito legal assassinar uma pessoa atrás da outra. Eu consigo entender isso vindo das mercenárias que já estavam acostumadas a matar gente, mas CARALHO. O garoto virou um maluco em quê? Três dias? Quatro? Menos de uma semana! Isso me revoltou um pouco. Aliás, isso me revoltou muito. O cara tirou o couro cabeludo de uma pessoa, sabe? Não dá, não consigo.
É complicado comentar sobre as cenas de ação do livro porque eu, de fato, não tenho apreço por cenas de lutinha, tiro, sangue, porrada e afins. É só algo que não vejo graça mesmo, principalmente quando são lutas sem alguma carga emocional entre os participantes. Se você gosta, com certeza vai gostar do livro, porque as cenas são bem escritas e têm bastante ação! E bastante tiro também. Uma quantidade gigantesca de tiros. Acabaram com a munição inteira do exército estadunidense ao longo da história, porque foi MUITO tiro.
Acho que não tenho muito mais a comentar sem estragar a experiência da leitura, porque Quentin tem que morrer é uma experiência que precisa ser vivida, não relatada. É realmente uma história pra se sentir mais do que entender. E eu senti muitos sentimentos negativos. Mas digo isso com todo o carinho ao autor, pois só um livro bom é capaz de despertar tantos sentimentos em alguém, mesmo que seja hate. Também digo, com todo o carinho, que o objetivo dele de homenagear Tarantino se cumpriu com sucesso; eu odiei no livro as exatas mesmas coisas que odeio nos filmes do Tarantino (e gostei das partes “Samuel Cardeal” sem Tarantino).
VEREDITO: ★★★★
E que venham menos livros em homenagem ao Tarantino por aí. Sério, por favor, parem. Eu imploro.
Texto de June Oliveira
Revisão por Clara Silvestre




Comentários
Postar um comentário