Sem cor, Supergirl é um descarte genérico de Guardiões da Galáxia
Quando foi anunciado que o segundo
filme do DCU seria uma adaptação de Supergirl: a Mulher do Amanhã, um quadrinho
do qual gosto muito, fiquei animado. Quando foi anunciado que Milly Alcock, uma
atriz que considero boa, interpretaria Kara Zor-El, fiquei mais animado ainda.
Quando Jason Momoa foi anunciado como Lobo no filme, comecei a ter alguns
receios. Quando o primeiro trailer do filme saiu, passei a ter muitos
receios. E, no fim, Supergirl não fugiu
daquilo que é apresentado nos trailers: é um filme sem cor que faz de tudo para
emular a franquia Guardiões da Galáxia, a ponto de, no pior sentido possível,
parecer ter sido dirigido por James Gunn mais do que por Craig Gillespie.
Em primeiro lugar, como já foi
mencionado, deixo claro que esta crítica vem de um leitor de quadrinhos.
Supergirl adapta de forma quase integral uma única história [A Mulher do Amanhã],
o que torna muito mais fácil comparar os dois materiais, diferente de longas
que juntam o conteúdo de diversas histórias. Não defendo cegamente a ideia de que
os filmes devem ser completamente fiéis e adaptar os quadrinhos sem nenhuma
mudança. Estamos falando de duas linguagens distintas, e aquilo que funciona em
uma não necessariamente funciona em outra, para o bem e para o mal. Temos
exemplos de filmes de super-heróis que fizeram mudanças positivas em
determinados personagens e narrativas e [muito mais] exemplos daqueles que arruinaram
um bom material base.
Dito isso, acredito que as diferenças entre as duas obras sejam um bom lugar para começar. Em ambas, lidamos com a história de duas garotas, Ruthye e Kara. Nos quadrinhos, Ruthye tem seu pai morto a sangue frio por um assassino chamado Krem dos Montes Amarelos e o persegue em busca de vingança. No filme, a mãe e o irmão de Ruthye (interpretada por Eve Ridley) também são mortos por Krem (interpretado por Matthias Schoenaerts). Essa é uma mudança que faz pouca diferença na história. O que importa é que a família de Ruthye é morta de forma cruel e sem sentido, como se suas vidas não significassem ou valessem nada. Com isso, somos levados a acreditar que o universo é injusto. Por outro lado, a relação entre as duas protagonistas é bem diferente no filme, o que se deve à maneira como Kara é construída nele. Como é perceptível tanto em sua curta aparição em Superman quanto nos trailers, há uma ênfase – muito exagerada, na minha opinião – em sua personalidade irresponsável, “badass” e festeira, que contrasta com o muito gentil e às vezes ingênuo Superman de David Corenswet. Essa personalidade também está presente no material base, mas o quadrinho traz alguns contrapontos importantes que criam nuances e evitam o exagero. Aqui, esbarramos em outra diferença significativa, talvez a mais relevante para a diferença entre as duas obras: no quadrinho, quase toda a história é narrada por Ruthye. Na maioria do tempo, acompanhamos sua perspectiva. A partir disso, vemos a garota lentamente entender quem é a Supergirl, uma heroína que ela acabara de conhecer e que passa a acompanhar em sua jornada por vingança. Não demora muito para Ruthye perceber que Kara Zor-El é muito mais do que a pessoa que mostra ser. Por baixo da sua aparente irresponsabilidade e rispidez, ela é gentil e sensível. Ela é capaz de inspirar os outros, de superar obstáculos e situações improváveis. Para Ruthye, a Supergirl é a prova de que ainda há sentido no universo e na vida, na medida em que ela demonstra por meio de suas ações que ainda há pessoas boas por aí, dispostas a lutar pelo que é certo e a proteger os mais fracos. Isso é expresso em uma das minhas passagens favoritas do quadrinho, na qual Ruthye diz:
“Mas... assistindo você, ficando ao
seu lado durante todos esses dias, eu pensei em como as coisas boas não
morreram com o meu pai. Que ainda há uma grande e poderosa roda girando pelo
universo, nos empurrando para frente, e que é a responsabilidade de cada um de
nós respeitar tal destino. Mundos morrerão e mundos viverão, e o mal deixará
sua marca em pessoas inocentes, e pessoas boas irão fazer o bem e sofrer mesmo
assim. E, em todo lugar, garotas irão nascer com os olhos abertos para o
ódio diante de si, e irão se perguntar se as suas vozes serão ouvidas em meio
aos gritos. E, naquele momento de dúvida, elas saberão, como eu soube, da lenda
da Supergirl, que perdeu tudo e continuou seguindo em frente. Então elas irão
se acalmar e vão se sentir satisfeitas com sua própria força, sabendo que
alguém lá fora sobreviveu ao pior. Que amanhã, quando a maldade tentar atacar e
a ajuda for implorada aos céus, haverá uma mulher esperando.”
No filme, essa admiração construída
ao longo da jornada praticamente não existe. Há, inclusive, uma cena em que
Ruthye afirma não querer ser como Kara, de quem ela parece ter mais pena do que
admiração. Sinceramente, é compreensível, pois a Kara do filme não faz nada que
poderia gerar essa admiração; na verdade, a única coisa com a qual ela parece se importar é salvar Krypto. Ao invés disso, a relação das duas é fortalecida apenas
pelo luto compartilhado, algo que também está presente no material base. Na
tentativa de se aproveitar do arquétipo de heroína imperfeita e traumatizada, Gillespie
e a roteirista Ana Nogueira parecem se esquecer, pela maioria do filme, do fato
de que a Supergirl é uma heroína (aliás, ela só usa o traje de Supergirl por uns 15 minutos em todo o filme, durante a batalha final). Inclusive, me incomodou o fato de que Kara
tem dificuldades e apanha em quase todas as lutas do filme. Claro, na maioria
delas, há um motivo narrativo para ela estar enfraquecida (envenenamentos e
afins). Eu não esperava uma “Mary Sue”; contudo, ela também não precisava ser
um saco de pancadas...
Supergirl: a Mulher do Amanhã é um quadrinho reconhecido pela beleza de seus visuais, sobretudo pelas cores marcantes, fruto da colaboração entre a artista e o colorista brasileiros Bilquis Evely e Mat Lopes. Supergirl, por outro lado, é um filme feio e sem cor. Os tons terrosos dominam o longa, e muitos dos cenários parecem ter sido reaproveitados da franquia Guardiões da Galáxia. Os elementos fantásticos são substituídos por realismo (culpa do miliciano Christopher Nolan, diga-se de passagem). Krem dos Montes Amarelos, originalmente um personagem cujo design parece ter influências de fantasias e RPGs medievais, torna-se um “saqueador espacial” genérico que poderia muito bem ser um figurante de Guardiões da Galáxia ou Rebel Moon ou qualquer filme de ficção científica no espaço dos últimos 15 anos. Krem não é um personagem profundo ou com qualquer história ou justificativa nem no quadrinho, o que, de certa forma, é interessante. Ele é mais uma representação da crueldade sem sentido do que qualquer coisa. E ele é mais ardiloso do que forte, um trapaceiro. Entretanto, o filme, tanto pelo visual genérico quanto por terem dado ao personagem superforça e o transformando em um lutador corpo a corpo, consegue deixá-lo insosso. Além disso, uma das cenas mais lindas do quadrinho, quando Kara enfrenta um dragão espacial empoderada por kryptonita vermelha (imagem abaixo), é substituída por um confronto sem graça com (adivinha só) saqueadoras espaciais genéricas que... isso mesmo, parecem descartes de Guardiões de Galáxia. Peço desculpas por estar sendo repetitivo, caro leitor. É uma forma de transmitir a dor que senti ao ver esse filme. A palavra “genérico” lhe cai bem demais para não ser usada repetidamente.
Ah, falando nas cenas de luta, elas
são péssimas. Acredito que isso é uma consequência direta dos visuais ruins do
filme no geral. Enfim, há uma sequência em um planeta chamado Bilquis (eu
entendi a referência) que é tenebrosa, mal dirigida, confusa e tem personagens demais
e coisas demais acontecendo. A batalha final poderia facilmente ter saído de
The Flash.
Se você leu a minha crítica de
Superman, sabe que, apesar de ter gostado do filme, eu odiei o plot twist
envolvendo a família kryptoniana de Kal-El. E, aqui em Supergirl, como uma
criança que foi avisada que não poderia comer tijolos, James Gunn – isso é obra
dele, com certeza absoluta – tenta comer os tijolos de novo. Ele dobra a aposta
e reforça em mais de uma cena que os pais de Kal-El tinham, sim, o objetivo de
mandar o filho para ser um conquistador na Terra. Pelo menos é mostrado que
eles eram uma exceção entre os kryptonianos, já que os pais de Kara pensam
diferente e não pretendem que a filha siga esse caminho; eles a enviam à Terra
para salvá-la, como deveria ser.
Possivelmente, o que mais me irritou nesse filme foi o Lobo de Jason Momoa. Eu sabia que o personagem seria forçado na história desde o momento em que sua participação foi anunciada [OBS: ele não aparece no quadrinho, embora estivesse nos planos originais]. Mas fazê-lo salvar a Supergirl na batalha final foi demais pra mim e, sinceramente, não há outra palavra para descrever essa cena, senão misoginia. Não é exagero; como eu disse, essa é uma história sobre duas garotas. Não sou um fã de Tom King, o escritor de A Mulher do Amanhã. Na verdade, eu o desprezo e queria que ele fosse preso. Ainda assim, acredito que o quadrinho da Supergirl é seu melhor trabalho, quiçá seu único trabalho verdadeiramente bom. E isso definitivamente está relacionado ao fato de que essa é uma história que ele escreveu para sua filha, o que transparece em diversas cenas e passagens. Há uma beleza nisso que é estragada pela presença do Lobo, um personagem que não agrega absolutamente nada na história e que só foi inserido nela para agradar a um certo público masculino que não conseguiria assistir por duas horas a uma história focada em apenas duas personagens femininas que são conectadas por uma dor em comum e aprendem uma com a outra. Se você apoia a presença do Lobo nesse filme, então é meu inimigo e eu vou te achar. Inclusive, é hilário que, mesmo com essa inserção desnecessária, o filme traga um enredo original em que Krem e seus companheiros sequestram meninas adolescentes para abusar delas e reproduzir sua raça masculina. Ele tenta dizer algo com isso, mas é raso e, portanto, falha. Talvez, se gastassem menos tempo de tela com o Lobo, poderiam ter se aprofundado nessa narrativa específica. Talvez, se Kara reagisse de uma forma diferente ao invés de simplesmente dizer “legal” ao receber essa informação, o enredo poderia ser mais interessante e significativo. Pelo menos, a mudança no final da história, com Kara matando Krem, tem um peso dentro dessa construção narrativa.
Outra temática central da história, tanto no quadrinho quanto no filme, é a vingança. Kara tenta constantemente convencer Ruthye de que não vale a pena se vingar de Krem, pois isso seria algo que iria assombrá-la pelo resto de sua vida. No filme, esse enredo subestima a inteligência do espectador e é explicado demasiadamente em diversos diálogos expositivos. Além disso, no lugar das cenas do quadrinho em que Ruhye não consegue matar Krem e depois impede Kara de fazê-lo por ter percebido por si mesma que aquele caminho não valia a pena – essa é justamente o momento da citação lá de cima, ou seja, o momento culminante do arco da personagem em que ela percebe que sua percepção acerca do universo mudou graças à companhia e à inspiração da Supergirl, o que, de novo, não é abordado no filme – temos aqui Kara impedindo Ruthye de matar Krem com mais exposição. Ou seja, no fim, a jornada das duas não valeu de nada. Ruthye não aprendeu nada com Kara.
Enquanto A Mulher do Amanhã desenvolve a relação de Kara e Ruthye ao longo da jornada das duas, Supergirl é um filme apressado em que as personagens apenas correm atrás de Krem e vão de um lugar a outro buscando informações sobre o vilão e sua gangue. Nisso, perde os pequenos detalhes, os momentos de construção de afeto; enfim, a vida que acontece e que mostra a ambas que viver vale a pena apesar de todo o sofrimento pelo qual passaram. Nesse contexto, o arco de Kara no longo é concluído por meio de um flashback jogado, e não por aquilo que a personagem passou ao longo das 2 horas em que a acompanhamos. É como se a jornada não valesse de nada...
Enfim, sejamos justos, o filme
também tem [poucos] pontos positivos. A cena de flashback de Kara em Krypton é
quase tão emocionante quanto no quadrinho, e a cena original dela chegando na
Terra e conhecendo seu primo Kal-El também é ótima (apesar de forçada enquanto conclusão do arco da personagem). Milly Alcock vai muito bem em seu
papel, mas eu acredito que Eve Ridley teve um material melhor para trabalhar
como Ruthye e, apesar de sua idade e pouca experiência, se destacou mais. Ela
certamente tem uma carreira promissora pela frente.
Meu veredito é que Supergirl, infelizmente, é um dos filmes de super-heróis que estragaram um ótimo material base. Se existe uma “fórmula Marvel” nos filmes do MCU, então esse é um filme construído sob uma “fórmula James Gunn” e mais parece um spin-off de Guardiões da Galáxia do que qualquer coisa.
Texto de Vandercleo Junior
Revisão por Clara Silvestre


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