'A Odisseia' de Christopher Nolan é insossamente épica.

Se você quer assistir à Odisseia, você faz parte de um de três tipos de espectadores: 1, você conhece o nome Christopher Nolan e confia na visão cinematográfica do diretor pra muito além da história proposta; 2, você conhece A Odisseia, e isso é o suficiente; 3, você não faz a menor ideia de quem seja esse cara e o que é essa história, mas está completamente envolvido no hype criado em volta desse filme.

No fim, dependendo de qual destes três grupos você pertence, sua percepção sobre a obra será completamente diferente, não devido  às expectativas sobre ela, mas baseando-se num padrão que, nem quando Nolan se propõe a mudar, consegue vencer sua própria pretensão.

Caso você não conheça A Odisseia, a experiência do novo filme do cineasta responsável por Oppenheimer, Interestelar e a trilogia Cavaleiro das Trevas não decepciona em entregar um evento cinematogáfico épico. Com elenco talentoso e uma história envolvente (graças à Homero, que deixou o roteiro pronto há 3 mil anos), as 2h e 52 min de filme passam sem nenhum esforço, com diversos momentos de tirar o fôlego fosse nos visuais deslumbrantes do horizonte no oceano, ou dos pequenos inserts de "terror" no pouco de fantasia que a obra se permite explorar.

Mesmo com Anne Hathaway (Penélope), Lupita Nyong'o (Helena e Clitemnestra) e Robert Pattinson (Antínoo) para roubar os holofotes de toda cena em que estão, os destaques são para Samantha Morton, que interpreta Circe, e Himesh Patel, que mesmo não estando em nenhum material de divulgação, ocupa grande parte do tempo de tela como Euríloco, figura importantíssima da jornada de Odisseu que de fato precisava de um intérprete que pudesse contrapor Matt Damon como Odisseu — e Himesh cumpre a tarefa com louvor.

Agora, como adaptação, o resultado é bem medíocre. Muito devido à incapacidade de Christopher Nolan em desenvolver sua própria criatividade. Tamanha é a pretensão do cineasta como o diretor que carrega o título de "pai do IMAX", que não há a tentativa de algo interessante para além de ser o primeiro filme filmado inteiramente em filme 70mm. O que significa que ninguém aqui no Brasil (e nem na América Latina) terão a oportunidade de assistir ao filme da forma intencionada, porque das 12 salas do formato disponíveis no Brasil, todas são digitais, não suportando o filme analógico de mais alta qualidade.

Comparação da exibição do filme no formato IMAX 70mm, do IMAX Digital, e nos cinemas normais (de cima para baixo).

A Odisseia, junto da Ilíada, são consideradas duas das primeiras peças de literatura do ocidente, tendo sido passadas de forma oral por anos, e de forma cantada dos gregos para os romanos e sendo as maiores influências para a estrutura narrativa que conhecemos não apenas nos livros que sucederam, mas em qualquer mídia de entretenimento: sendo a "jornada do herói" original, ao mesmo tempo que também é um resquício cultural de uma sociedade antiga, que nos permite estudar os conceitos de moral, hierarquia e estrutura social, política econômica e religiosa (hoje mitológica) dos gregos. No fim, são muitas as camadas a serem devidamente estudadas e trabalhadas, que não necessariamente seriam a obrigação de Nolan em fazer... se o próprio não estivesse vendendo o filme como uma adaptação fiel.

O próprio visual do filme, embora inegavelmente grandioso, carece da estética do mundo grego colorido da Antiguidade. Com exceção de Tróia, todas as outras localidades mais parecem as ruínas gregas atuais do que a grande sociedade que Ítaca, por exemplo, deveria ser. Mesmo onde as construções não precisam existir, como a ilha prisão de Calípso (Charlize Theron), que deveria parecer como um paraíso, é puro deserto. O mais lindo a se ver aqui será o mar. Este seria impossível não parecer grandioso, principalmente quando as cenas dele foram filmadas de forma prática com navio real... que é um navio viking ao invés de grego.

O anacronismo ainda vai passar pelo figurino, que funciona muito bem para o rei Agamemnon (que não precisa falar e nem mostrar o rosto para ter uma presença absurda sempre que aparece), mas fica completamente deslocado ao longo do filme.

Ben Safdie interpreta o Agamemnon, o Rei Comandante da Guerra de Tróia.

Jon Bernthal é Menelaus, o Rei de Esparta, ao lado de Tom Holland como Telêmaco, o príncipe herdeiro de Ítaca, com visuais de extrema influência tática contemporânea.

Não satisfeito? Odisseu literalmente diz que suas ações são responsáveis pelo fim da Era de Bronze da civilização. Conceito que só veio a ser pensado pela primeira vez em 1820.

Momentos-chave da história foram completamente cortados para moldar o protagonista em uma versão mais "inocente", que conversa muito mais com o conceito de herói moderno e repete uma narrativa de culpa já trabalhada por Nolan em Oppenheimer, na história protagonizada por Cillian Murphy.

Mesmo com momentos retalhados do livro (geralmente quando a presença de qualquer ser mitológico era imprescindível), os terrores enfrentados por Odisseu são bastante empolgantes e convincentes. E tais mudanças, embora sem graça para quem é familiarizado com a história original, funcionam para o que é construído aqui e culminam em um terceiro ato satisfatório em ação, interação e entrega musical, graças à trilha sonora do absurdo Ludwig Göransson (Openheimer; Pecadores; Pantera Negra; O Mandaloriano... precisa de mais exemplos?), que foi entregue pelo diretor o desafio de não utilizar orquestras porque não existia na época (curioso, vide todas as outras inacurações históricas do filme) e não decepciona. 

VEREDITO: ★★★ ½

No fim, o filme é exatamente o que se pode esperar da capacidade de Christopher Nolan, o que pode ser uma notícia excelente ou péssima dependo do seu próprio gosto e/ou repertório. Um cineasta tão obcecado com realismo se desafiar com uma obra tão intrisecamente fantasiosa é, no mínimo, interessante, e com um elenco impecável conquista seu espaço como um dos destaques do ano que merece, sim, ser experienciado no cinema. De preferência na maior tela possível!


Texto de Tiago Samps

Revisado por Luisa De Luca e Clara Silvestre

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