Será o verdadeiro fim de Doctor Who?


A New New Who, também chamada de era Disney, trouxe diversas perguntas para a franquia. "Será que a Disney vai tratar bem a série? O que será que o Russell T Davies (RTD) vai trazer de novo esta vez?" “Como o novo ator escolhido vai performar no personagem?”, entre outros questionamentos que borbulham na cabeça dos Whovians.

Quando a notícia de que a Disney comprou a licença de Doctor Who saiu, eu particularmente fiquei ressabiada, pois a empresa do rato não trata suas franquias com tanto esmero assim (vide como está a situação de Star Wars, uma franquia cinquentenária que está passando por momentos confusos também). Inicialmente, este acordo feito entre a empresa norte americana e a BBC prometeu grandes frutos, uma vez que eles pareciam ter até certo ponto uma grande expectativa quanto a um esperado sucesso ao reunir os fãs que aguardavam uma nova temporada pós 13ª doutora e a busca por um novo público que ao utilizar de estratégias como resetar para uma primeira temporada e a escolha por Ncuti Gatwa, que por sua vez, foi bem acertada e além de um grande investimento na tecnologia da série.


O intuito desta última com certeza era para modernizar o seriado, mas em minha visão, foi o momento em que começou a se perder em sua essência, pois parte da alma de Doctor Who é toda a tecnologia anacrônica e retrofuturista e o novo visual da Tardis já traz uma estética "clean" de forma exacerbada. A adição de novos "gadgets" para a série foram ideias interessantes, porém, ao mesmo tempo trazem a sensação de conveniência de roteiro.



Trazer novamente personagens icônicos da série, como a Donna e a figura do David Tennant, agora como 14º Doutor, até em primeira vista é uma ideia que é um chamariz para o público apegado aos anos 2000. Entretanto, apesar de ter sido incrível reassistir à dinâmica entre os dois, a estranheza na justificativa para que isso acontecesse gerou o início de uma enorme bola de neve de ideias subaproveitadas e saídas de roteiro fracas, indo até o desfecho da era Gatwa, com ideias de grandes vilões, porém com sequências um tanto quanto medíocres, considerando a grandeza da qual se falava desses personagens e como seria dificílimo derrotá-los. O plot de descoberta da origem de Ruby Sunday novamente me recorda a mesma ladainha que aconteceu com a Rey de Star Wars, em que nos dois casos as teorias dos fãs eram bem mais interessantes do que o que realmente foi canonicamente escolhido. É triste o que estão fazendo com franquias enormes e cheias de décadas na conta hoje em dia…

O showrunner tentou enganar os fãs criando pistas falsas durante todo o roteiro que ele mesmo acabou se perdendo. Antes adorado por muitos, até a relação com esta parte do público que o defendia ficou sob maus panos, pois nem eles conseguiram gostar e compreender para onde o escritor queria levar a série. Havia muitas teorias interessantíssimas dos fãs e antes tivessem escolhido qualquer uma delas para que alguém ao menos pudesse se gabar de estar certo. E olha que tinha muitas alternativas…

Ruby podia ser uma estrela, uma entidade, ter nascido em outra galáxia, ser filha de outra dimensão, ou qualquer conceito inusitado que quisessem inventar, mas ela é apenas uma jovem normal. Normal?! Muitas coincidências estranhas aconteceram com ela a vida inteira para ser apenas isso. As pessoas não assistem Doctor Who para ver “normalidade” . É a esquisitice que a série carrega que justamente exalta e abrilhanta a humanidade das pessoas, porém essa falta de respostas e justificativas só enfraqueceram o enredo da série e o tornou preguiçoso.

Uma das questões que apontam para a crise atual da série é de que Doctor Who ficou “woke” demais. Para os que não conhecem, “woke” é um termo difundido na internet para descrever pessoas, obras ou ideias que demonstram preocupação com questões sociais, como diversidade, inclusão e combate às desigualdades, porém, o termo virou pejorativo ao ressaltar que tal obra tem um excesso de militância ou do que é “politicamente correto”. Nos últimos anos, parte do público tem considerado que Doctor Who caiu nessa ideia, argumentando que a série passou a enfatizar com mais frequência temas ligados à diversidade, representatividade e questões sociais contemporâneas. Para esses espectadores, essas pautas teriam se tornado mais evidentes nas narrativas recentes, por vezes em detrimento da construção da história. Por outro lado, muitos fãs e críticos defendem que Doctor Who sempre abordou temas políticos e sociais desde sua criação, utilizando a ficção científica para discutir preconceito, autoritarismo, desigualdade e direitos humanos. Assim, o debate sobre a suposta guinada "woke" da série reflete diferentes interpretações sobre o papel dessas questões na narrativa e sobre as expectativas do público em relação à franquia. 

Como dito anteriormente, a escolha de Gatwa foi a mais acertada de toda esta era. Ele trouxe a própria autenticidade para o personagem de maneira brilhante. Ele é energizante e tem uma presença singular em tela, trazendo um ar jovial para o personagem em contraste com os doutores mais recentes. É decepcionante de se pensar que não haverão mais episódios com ele liderando e ainda pior, houve menos do que o que foi acordado primariamente. Esse número de apenas oito episódios não funciona para a lógica de Doctor Who em que temos o sentimento que muito da relação entre ele e sua companheira foi construída em aventuras fora de tela. Torna-se um formato apressado apenas para sucumbir à atual roda do sistema da Indústria das séries. Alguns episódios que mais se destacam na Era Disney tais como “BOOM”, “The Rogue” (que é o meu favorito), “73 yards”, que é incrível, “Lux”, “The Well” e “Lucky Day”, deixando um sentimento de “quero mais” latente que não será satisfeito. Seria incrível ter tido a oportunidade de assistir mais episódios com o nosso 15º Doutor.

Doctor Who faz parte do sangue britânico e seguirei com esperança de que a série tenha um futuro, afinal, ela já ficou no limbo por 15 anos e retorna sempre como uma fênix, pois então, por que não acreditar que vai acontecer de novo?

Texto de Luisa de Luca Revisão de Tiago Sampa

 


Comentários

Postagens mais visitadas