Wicked: Pelo bem, tudo mudou no Rio! | REVIEW QUE NINGUÉM PEDIU

Acredito que todos tenham ciência de que, antes de ser filme, Wicked é uma peça. Talvez não tenham ciência do tamanho que esse espetáculo tem de fato, sendo não apenas uma das atrações mais longevas da Broadway (a 4ª mais longeva, pra ser mais preciso, atrás só de clássicos atemporais como O Rei Leão, Chicago e O Fantasma da Ópera), há 21 anos — e ainda contando — em cartaz não apenas nos Estados Unidos, mas ao redor do mundo.

A reimaginação comédica e indiscutivelmente romântica das bruxas do mundo de O Maravilhoso Mágico de Oz chegou pela primeira vez ao Brasil em 2016 em São Paulo, e devido ao sucesso alavancado pelos filmes, chega pela primeira vez ao Rio de Janeiro.

Na sessão performada no dia 19 de Agosto de 2026, das 20h às ~23h, todo o elenco principal estava em cena, com Myra Ruiz e Fabi Bang interpretando Elphaba e Glinda com tanta facilidade quanto a de respirar. A intimidade de cada uma com suas personagens, o palco e o público é inegável e parte imprescindível da peça, mas não são só elas que brilham.

Hipolyto foi meu favorito entre os coadjuvantes, principalmente por conseguir sustentar muito bem o dueto com Myra em Se Eu Tenho Você (As Long As You’re Mine) como Fiyero, o que o dublador Raphael Rosatto não conseguiu fazer na dublagem do longa. Luísa Bresser curou onde doía em mim desde a terrível entrega de Marissa Bode em A Bruxa Má do Leste (Wicked Witch Of The East). Bizarro como sua voz ecoa por toda a Grande Sala da Cidade das Artes.

Fotografia de Rafael Cusato.

Mas que o elenco é excelente, todo mundo já sabe. O que faz valer a pena assistir à peça é a individualidade atribuída à cada sessão.

Por exemplo: se você acompanha o nosso POD•ish•CAST, sabe que já assistimos a dúzias de versões de Wicked, inclusive à brasileira. Mas a peça que eu assisti dessa vez não foi a mesma. Não apenas por introduzir novos detalhes inspirados no filme, como a expansão de Popular (Popular), mas pelo retrabalho das letras (que difere tanto do longa quanto de versões anteriores da peça) e, claro, do humor, que deixa de ser paulista e se torna 100% carioca, referenciando espaços, manias e pedaços diversos da cultura do Rio de Janeiro, o que deixa o espetáculo ainda mais íntimo do público, que se torna um dos milhares de amigos da vida de Glinda.

O maior dos parabéns vai para a banda, surpreendentemente composta por menos de 10 musicistas e formada majoritariamente por metais de sopro, meia dúzia de cordas e um percussionista. Um trabalho maestral (se me permite a piada) de Thiago Rodrigues.

Sobre os outros aspectos técnicos que fazem do espetáculo tão divertido, presenciar pessoalmente os efeitos práticos (dos quais, vale lembrar, o Brasil foi pioneiro em fazer a Elphaba voar sobre o público) é mágico demais. Cada troca de cenário e jogo de iluminação, a vontade é de assistir a peça novamente para focar em cada um desses detalhes.

Reprodução: Teatro Renault (São Paulo)

Infelizmente, o segundo ato ser corrido é um problema universal da peça desde 2003, mas a essa altura, depois de assistir tantas vezes, já estou acostumado.

A dúvida que fica é: as tosses do Baccic são maneirismos propositais para sua performance do Mágico de Oz? Porque caso não, melhor ele procurar um fonoaudiólogo e/ou um otorrinolaringologista.

VEREDITO: ★★★ ½

Wicked é um dos melhores exemplos que justificam o teatro ser a quinta arte e vale todo o esforço (porque a Barra da Tijuca não é perto para ninguém que more em um lugar de verdade, convenhamos) e preço. E não, definitivamente não é a mesma coisa que assistir ao filme e não apenas por serem artes diferentes, mas pela sensação de estar finalmente presenciando o que aquilo nasceu para ser. Um espetáculo que não precisa parecer ser real.

E histórias sobre preconceitos e narrativas construídas para controlar o povo, principalmente em tempos pré-eleitorais, são sempre bem vindas.

O musical ficará em cartaz até Outubro, e embora seja um pouquinho difícil conseguir ingresso pra sentar do ladinho do seu grupo, ainda dá pra encontrar algumas sessões com lugares disponíveis.

Texto de Tiago Sampaio

Revisado por Fernanda "Ferbs" Pinheiro

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