LANTERNAS não teve medo de ter medo. | REVIEW QUE NINGUÉM PEDIU
Lanternas foi um dos primeiros projetos anunciados por James Gunn para o (ainda novo) DCU, lá em 2023, com pouquíssimo revelado, além de um leve indício de que poderia ser, de certa forma, inspirada em “Lanterna Verde: Ano Um”, um quadrinho Elseworlds (selo para histórias de realidades alternativas dos personagens da DC), que reimagina os policiais galáticos e, principalmente, recontextualiza os papéis e a relação de Hal Jordan e John Stewart.
No fim, a série é por si só um Elseworld, se propondo desde o primeiro episódio a trazer, de uma forma ainda mais diferente, a dinâmica dos Lanternas Verdes da Terra, focando bem mais em ser um drama humano do que uma ficção espacial.
Criada por Damon Lindelof (Watchmen), Chris Mundy (True Detective) e pelo controverso Tom King, a série acompanha John Stewart (Aaron Pierre) durante o seu treinamento para substituir o primeiro Lanterna Verde do setor 2814, Hal Jordan (Kyle Chandler), até serem interrompidos por uma chacina misteriosa no interior do Nebraska, causada por um fugitivo alienígena capaz de destruir o planeta inteiro.
Apesar da ameaça, o escopo da série se limita e permanece na pequena cidade de Rushville, e onde se destaca mesmo é nos conflitos inter e intra pessoais de Hal e John, que precisam enfrentar pela primeira vez em suas vidas algo que sempre os fugiu: o medo.
O Lanterna Verde veterano se agarra à glória de seu papel como tudo que resta na sua vida e teme a possibilidade de perder isso para sempre; enquanto o novato sequer entende que, talvez, ocupar este papel nem seja o que quer de verdade após uma vida condicionada especialmente a isso.
Kyle Chandler tem um carisma fora do comum e incorpora tão bem o ar clássico dos quadrinhos que dá vontade de inventar uma fonte da juventude só para ver histórias cobrindo os 30 anos de carreira do seu Hal Jordan. Mas Aaron Pierre não fica atrás, sendo introduzido como um personagem duro, doutrinado à serviência, e crescendo para entregar um herói com sua própria força de vontade.
Claramente, os criadores da série estudaram e conhecem estes personagens, suas origens e aventuras. E é justamente por isso que essas “desconstruções” talvez incomodem tanto: por fazerem sentido.
O real problema é que elas podem coexistir ao lado do que todos esperam de uma série de super-herói e naturalmente se espera de uma série sobre Lanternas Verdes: ação consideravelmente colorida. O que não acontece aqui, não por falta de orçamento — vide que a série custou $20 milhões por episódio —, mas de vontade.
Em compensação, é um orçamento muito bem gasto em um elenco cheio de química (até para se odiar), uma trilha sonora funcional e grudenta, e uma fotografia limitada apenas pela perda da técnica de boas cenas escuras na filmagem digital, mas que brinca com as cores justamente para evidenciar Hal e John como opostos e os coloca perto do verde apenas em momentos muito específicos. Como se, no audiovisual, o uso de figurinos e escolha de cores dos arredores fossem parte integral da contação de uma narrativa. Fascinante, não?
O trabalho dos roteiristas é, no mínimo, controverso, não apenas pela escolha de prender os pés no chão, mas pelo que cada um desses nomes renomados quis trazer para a obra:
Damon Lindelof, que já trabalhou com a DC na série de Watchmen, buscou repetir o que deu certo em 2019 ao adicionar uma leitura sócio-racial ao papel destes super-heróis, o que irritou uma parcela previsível dos espectadores. Mas, honestamente, embora funcione e seja de fato bem feita, é inegavelmente menos sutil que a tentativa original, o que pode ter sido a intenção, justamente pra causar ainda mais desconforto.
Já Tom King, que vem da indústria dos quadrinhos, tendo passado por Batman, Supergirl e atualmente por Mulher-Maravilha, possui manias inconfundíveis para qualquer um que tenha lido mais de um de seus trabalhos: trauma paterno, culpa e arrependimento, com uma pitada de terror oriental escondido em algum lugar, como em uma facção de alienígenas (troque por estrangeiros) vingativos e suicídas que se explodem para matar seus opressores e os inocentes à sua volta. O que esperar de um ex-agente da CIA, né?!
Para quem não conhece os Lanternas Verdes, é um mistério de muita qualidade. Para quem curte séries como True Detective, essa é a pedida. Para quem não liga para coisas de super-herói então, fique tranquilo! Agora, fãs mais puristas da Tropa dos Lanternas Verdes… melhor se ater aos gibis para evitar estresse.
VEREDITO: ★★★ ½
De coração aberto para uma nova interpretação, é uma jornada interessante que poderia ter tido um final 0,1% mais gratificante — admito que não ver o John usando pelo menos um traje me decepcionou. Ainda assim, deixa espaço de sobra para uma segunda temporada continuar o gancho com Sinestro, Guy, os Guardiões e, por que não, outros Lanternas terráqueos como Kyle Rayner e Jessica Cruz; além de justificar as futuras aparições de Aaron Pierre como herói nos filmes do DCU, a começar por Man of Tomorrow, já marcado para o ano que vem.
Escrito por Tiago "Samps" Sampaio
Revisão por Fernanda "Ferbs" Pinheiro e Clara Silvestre






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