AVATAR: OS SETE REFÚGIOS: A sobrevivência é uma caixinha de surpresas | REVIEW QUE NINGUÉM PEDIU

 

Após o vazamento do filme Avatar Aang, o calendário do Avatar Studios foi todo pros ares - como um fim de semana no Nerdish -, o filme foi pra julho e a novíssima série pra outubro. E assim, o Livro 1 de Os Sete Refúgios foi todo exibido durante as sextas do décimo mês, terminando no dia 29 e jogando o universo de Avatar no caos.

Séculos depois do Cataclisma supostamente causado por Korra, Pavi e Nisha, duas crianças capazes de dominar os quatro elementos, se veem protegidas por membros do Lótus Branco em Ellora, um refúgio orgulhoso que, como o resto do mundo, teme o Avatar. Quando o refúgio é acometido por saques e uma anomalia espiritual, o medo e a necessidade das Avatares aumentam.

Diferente de A Lenda de Aang, cujo objetivo e enredo foram muito bem definidos desde o primeiro episódio, e de A Lenda de Korra, que, por incertezas executivas, teve de se encontrar livro a livro, Os Sete Refúgios se baseia em uma narrativa imersa em mistérios para os personagens e a audiência. A começar pela existência de duas Avatares ao mesmo tempo e o que aconteceu com Korra. Mas essas são apenas as perguntas com que a série, de forma inteligente, te intriga no começo, pra daí te lançar ainda mais perguntas que vão sendo respondidas conforme o livro se desenrola.

O problema de uma narrativa assim é que tudo acaba dependendo de quais são as respostas. E felizmente, até então, todas elas foram extremamente satisfatórias e, em grande parte, inesperadas. Palavra que pode definir o Livro 1 inteiro, mesmo com alguns mini-mistérios sendo fáceis demais de prever com os personagens, inexplicavelmente, nem ao menos considerando a possibilidade. Mas isso advém do problema generalizado com séries para crianças nos dias atuais (nem só delas, VisionQuest tem sofrido do mesmo), que também afeta certos diálogos, que se tornam demasiadamente expositivos e, ao mesmo tempo, truncados.

Algo que também é refletido no tom que, em certos momentos (e episódios), é infantil demais e, em outros, consegue balancear a seriedade com a diversão, como em A Lenda de Aang. Essa confusão permeia a primeira parte do Livro e sequências do episódio duplo Os Emissários, que são pontuadas por piadas aleatórias vindas de personagens aleatórios. Mas, felizmente, isso não ocorre nos episódios finais, onde os (imensos) acontecimentos recebem toda a seriedade que merecem.

Ao mesmo tempo, a série faz um excelente trabalho na construção dos personagens da Pavi e da Nisha, e também do elenco secundário como Jae, Karthik e até a líder de Ellora, Kayoko, e a dos Sem Rostos - mesmo que o grupo receba apenas algumas sobras, é, ao menos, um tratamento melhor do que o Lótus Vermelho e, ouso dizer, os Igualitários. É fascinante o quão fácil é gostar das garotas, as duas com suas próprias peculiaridades e, aparentemente, jornadas, desde o início, estão tão bem definidas quanto Aang, Katara, Sokka e Suko.

Inevitavelmente, e com razão, por ser uma série animada, muito se comenta sobre a animação não-tão-fluida que a série possui e, de fato, alguns momentos beiram a Invencível, mas estes são poucos e breves. A verdade é que depende muito dos olhos de quem vê, pois a história e a construção dos mistérios, até os que não foram respondidos nesse livro, prendem mais que a animação. O que não vale é reclamar do estilo, só por ser diferente, porque até o momento, cada projeto teve seu próprio estilo.

Assim como a trilha sonora de Jeremy Zuckerman, que aqui é quase completamente por sintetizadores, com a usual orquestra e Varijashree Venugopal pontuando momentos-chave. A trilha é o microcosmo da série em si, pois, apesar de ser diferente, em nada trai o que veio antes, pelo contrário, se utiliza com carinho e em demasia, como no caso do tema do Avatar e das poucas aparições do tema da Korra, que inadvertidamente te fazem sorrir. A canção Return to Me/Volte pra Mim já é um clássico.

E falando na dublagem, aqui temos a primeira da franquia inteiramente em São Paulo. Como sair de The Clone Wars pra uma série Histórias de... (Tales of), a mudança é nítida, principalmente na leitura de placas de Ulisses Bezerra, simplesmente é de serrar os dentes. Dito isto, o elenco principal manda muito bem, Sicília Vidal e Mariana Evangelista capturam a Pavi e a Nisha perfeitamente. E, sendo sincero, a adaptação e direção musical estão muito melhores do que em A Lenda de Aang, que só se salvou Pequeno Soldadinho mesmo. De resto, Gabriel Martins e Marco Antônio Abreu são um tanto ofuscados por Shallana Costa e o pouquíssimo utilizado Guilherme Lopes, que se destaca muito no elenco terciário.

Esse é um caso clássico de uma série em que os positivos superam os negativos ao dobro. Em um momento, temos uma guerra de comida e, em outro, as pessoas abrem mão da segurança e do bom senso por um medo infundado do PT. Ter esses dois extremos não é o problema, mas a abordagem de um momento é muito melhor que a do outro, tanto que te faz até esquecer que sequer teve alguma fraqueza. Unida a isso, o mistério muito bem construído, levando a rumos inesperados, com pistas falsas muito inteligentes que te deixam sem saber qual o rumo dessa história, mesmo sendo evidente que a produção sabe exatamente pra onde vai, e a nova série já começou muito bem.

VEREDITO: ★★★★

Apesar de não concordar inteiramente, acho que a escolha de 3 episódios por vez foi muito acertada. O que parecia enrolação ia parecer ainda mais semanalmente, e os episódios mais fracos na primeira metade da temporada iam ficar ainda mais em evidência. Mas enfim, pra alguém que não gosta de crianças, como eu, protejerei a Pavi com minha vida. ESPORTES PORTÁTEIS!

PS: Essa série fala de superar o medo melhor do que Lanternas.

Escrito por Gabriel Bezerra

Revisado por Tiago Samps


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