Cara de Barro — A VARIEDADE é o coração do novo DCU | REVIEW QUE NINGUÉM PEDIU


 Existem dois extremos de filmes de vilões de super-heróis na indústria do cinema: aqueles do Homem-Aranha, dos quais a Sony insistiu por tempo demais preparando terreno para um crossover com a Marvel que nunca aconteceu; e os do Batman, que conquistam Oscars (Coringa, 2019) e Emmys (The Penguin, 2024) por abraçarem uma abordagem única e mais madura destes vilões para justificar um protagonismo não em oposição, mas em cima da ausência dos heróis sob os quais são originalmente atrelados.

Com Cara-de-Barro, não foi diferente. O novo universo cinematográfico da DC já nasceu prometendo variedade tonal com ação clássica de super-herói (Superman; Supergirl), drama de mistério (Lanternas) e comédia adulta (Comando das Criaturas), então um filme de terror sobre um vilão do Batman vindo do coração de Mike Flanagan (Doutor Sono; Maldição da Residência Hill/Mansão Bly; criador também da nova série de Carrie, A Estranha) não soou discrepante ou incompatível com o que vem sido construído até então. Claro, a ausência de um Batman neste universo torna questionável a escolha da mitologia de Gotham ser apresentada pela primeira vez em um filme de vilão, mas levando em conta os exemplos anteriores, onde o palhaço do crime teve não um, mas dois filmes em um universo em que Bruce Wayne ainda era uma criança, e Oz Cobb pôde coexistir no mesmo espaço que o Cavaleiro das Trevas de Robert Pattinson sem sua aparição (e referência mínima no 45 do segundo tempo), não seria tão difícil funcionar. E funcionou.

O filme acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator no ápice de sua carreira que, após se envolver com a namorada de um criminoso de Gotham, perde tudo. Desfigurado por Markos Szabo (David Dencik) e com sua reputação desmoralizada, Hagen gasta todos os seus recursos em um tratamento experimental desenvolvido pela Dra. Caitlin Bates (Naomi Ackie), mas sua própria ambição e falta de caráter e equilíbrio o levam aos becos mais escuros até se tornar um monstro literal e figurativamente.


A trama é simples, e muito parecida com diversas outras mídias das quais você pode estar familiarizado (como A Substância, de 2024 ou a série The Beauty), e bebe muito de Perito Em Formas Humanas (Feat of Clay), o 20º episódio da série animada do Batman dos anos 90, que misturou pela primeira vez as histórias dos quadrinhos de Basil Karlo (o astro de cinema desfigurado que se tornou um serial killer) e Matt Hagen (um caçador de tesouros que se tornou um monstro de argila após contato com radiação) na versão que viria a ser a mais popular. Mas essa simplicidade é necessária para que o filme se sustente como um body horror sem o Cavaleiro das Trevas.

Ao abraçar o subgênero do terror, o filme se distancia do genérico de ação de super-heróis para se justificar, assim como os dramas de Coringa e Pinguim, mostrando que o forte não apenas dos spin-offs de Gotham City mas toda a abordagem do novo universo cinematográfico da DC é certeira para evitar saturação e conversar com diferentes públicos.


A Gotham City do filme possui uma estética diferente das anteriores em live action trazendo uma noite avermelhada (também parecida com a série animada) mas sua fotografia, assim como elenco e trilha sonora, chegam até um certo ponto, apenas. São quase ótimos. Quase. Certamente o problema não foi o orçamento, mas preciso assistir de novo pra determinar se foi deficiência na direção ou na edição, que inicia o filme em um ritmo bem esquisito (no caso, corrido, de “vamos logo ao que interessa”) antes de se encontrar.

VEREDITO: ★★★ ½

Mesmo pra além do gore, é um filme divertido, que ainda que não tenha vindo à luz da forma que Mike Flanagan idealizou inicialmente, é retrabalhado pelo diretor James Watkins como uma ótima pedida para uma dobradinha no cinema.


Escrito por Tiago Samps

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