MAGNUM: QUANDO MENOS É MAIS | REVIEW QUE NINGUÉM PEDIU
A Marvel iniciou o ano de 2026 lembrando da existência do selo Spotlight, criado em 2024 (com Echo) pra contar histórias mais “pé no chão”, focando em tramas mais pessoais e, pelo menos até a página dois, com menor responsabilidade de se conectar com o grandioso Universo Cinematográfico da Marvel.
Magnum é a nova aposta desse selo, mostrando (de novo, como falamos na resenha de Thunderbolts*) que escopos menores e relações bem desenvolvidas são mais importantes que eventos multiversais lotados de nostalgia — e a série brinca bastante com esse e outros vícios do gênero de super-heróis que a própria Marvel insiste em repetir — e que, como The Boys (não sendo a única coisa a se comparar entre as produções), prova que adaptações de quadrinhos não precisam ser fiéis para serem boas.
Se nos quadrinhos Simon Williams vem de família rica e tem origem como antagonista dos Vingadores, aqui ele é filho de imigrantes haitianos tentando realizar um sonho, e apenas isso. Claro que ele tem superpoderes, mas esse é o ponto menos interessante do personagem interpretado por Yahya Abdul-Mateen II (que já brilha pela SEGUNDA vez em uma adaptação subversiva de quadrinhos, depois de Watchmen, de 2019).
Inclusive, mesmo não sendo a intenção anunciada, a série trabalha muito bem o conceito “e se pessoas tivessem super poderes na vida real”, e diferente de The Boys e qualquer outra ideia que Zack Snyder tivesse com o Superman, aqui não tem fascismo. Tem exploração, que no excelente e destacado 4º episódio “Porta”, é trabalhada lidando com Blaxpoitation, e tem também uma vertente pouco pensada nessas abordagens: a vontade de ser normal.
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| O comediante Bryon Bowers é DeMarr Davis, o “Doorman” no episódio completamente em preto e branco que explica e ambienta todo o drama vivido por Simon na temporada. |
Um homem negro em Hollywood já tem problemas o suficiente que superpoderes destrutivos aberrantes não pudessem agravar, o que juntando com a personalidade arrogante e tão autossabotadora quanto seus poderes, fazem de Simon um protagonista bem mais interessante do que talvez sua versão original pudesse ser, em outra abordagem.
Mas, como a própria série admite, Simon não funciona. Não sozinho, não sem Trevor Slattery, que surpreendentemente é a maior (embora não única, mas a menos sutil) conexão da série com o resto do UCM. Ben Kingsley atinge o ápice de seu trabalho neste personagem original que nasceu odiado em Homem de Ferro 3 (2013), mas que mostra suas nuances desde o curta Todos Saúdem o Rei (2014), e é surpreendentemente um dos personagens com o arco mais sólido e, pasme, interessante dessa franquia em duas décadas, mesmo com 4 aparições.
A dinâmica entre as personalidades de Simon e Trevor, assim como seus conflitos pessoais que se cruzam, é a melhor parte de toda a série.
A série mais brinca com o gênero de super-heróis do que se insere no meio, mas não deixa de ser uma peça dentro do UCM, repleta de referências e ações do Departamento de Controle de Danos, que com certeza vão se conectar até com o filme do Homem-Aranha mais pra frente neste ano, mas eu não poderia ligar menos. A Marvel e suas superpataquadas não poderiam ser mais irrelevantes e desinteressantes no meio de um conflito pessoal de conquista que se destaca ao ser simples e bem feito, não só por todo o elenco, mas também tecnicamente, tendo uma personalidade bem distinta das outras séries do estúdio e sendo limpo, divertido e completamente maratonável em oito episódios que passam que nem dá pra sentir — e inclusive deixa um gostinho por mais.
VEREDITO: ★★★★½
Magnum é mais uma daquelas séries que “ninguém pediu” que terminam melhores do que os spin-offs e produções “necessárias” de franquia, também sendo completamente sabotada com um marketing negligente, mesmo sendo o melhor lançamento do primeiro mês de 2026 e facilmente parte do top cinco produções televisivas da Marvel (mesmo contando a primeira — e superior — versão da Marvel TV).
Texto por Tiago Samps
Revisão por Fernanda "Ferbs" Pinheiro







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