‘Supergirl’ e a misoginia disfarçada de crítica.

 A estreia de Supergirl nos cinemas nos coloca dentro da terceira repetição de um ciclo muito comum no cinema de super-heróis: o revisionismo.

Em 2016, a CBS lançou (e a CW cotninuou) uma série da Supergirl que durante as suas 6 temporadas foi duramente criticada pela base de nerdolas na internet por ser, assumidamente, uma série escrita pensando no público feminino. Embora a série de fato tenha perdido a qualidade em seus últimos anos (o que não foi exclusivo da Mulher do Amanhã, já que a série do Flash, no mesmo universo, passava pela mesmíssima crise), suas primeiras três temporadas são consideradas como parte dos melhores materiais lançados pelo Arrowverse entre aqueles que realmente acompanhavam esse universo (como nós aqui no Nerdish, que temos diveros textos sobre ele, desde uma homenagem ao seu legado até capítulos dedicados do Trilhando Trilhas). No entanto, quem lê os quadrinhos também sabe que a Kara Zor-El interpretada por Melissa Benoist não passava, de fato, de um Superman de saia no que diz respeito à sua personalidade e às histórias que eram adaptadas. Isso pode ter funcionado na época, mas fazia dessa versão objetivamente uma má adaptação da personagem.

Melissa Benoist como Kara Danvers na primeira temporada de Supergirl, exibida na CBS no ano de 2015.

Uma das 41% de reviews negativas do público para a série da Supergirl de 2015 a 2021 no MetaCritic.
Em contrapartida, na avaliação da crítica especializada, 81% é positiva e 18% é mista, sendo 0% negativa.

Quem mais atacava a série não eram os leitores incomodados com essa releitura, muito menos quem tirava tempo para assistir aos 24 episódios que eram lançados anualmente. Era exatamente o mesmíssimo grupo que sequer daria chance para um episódio da série na época, e continua não dando uma nova chance para o novo filme estrelado por Milly Alcock nos cinemas.


O cômico é que o discurso mudou. Para criticar ao novo filme, de repente Melissa Benoist é a Supergirl perfeita. Toda essa comparação superficial, que, claro, por não terem assistido a nenhuma das duas versões, se resume apenas à aparência das duas atrizes, não é novidade. No curto período em que Sasha Calle foi a Supergirl para o filme do Flash (2023), a aparência de Melissa também era usada para os ataques misóginos e racistas voltados à atriz latina.

Tweets recentes comparando as Supergirls, comparando inclusive as aparências das atrizes.

Manchete de um artigo do blog The Mary Sue de 2023, e postagem do X (na época ainda Twitter) quando Sasha Calle interpretou Kara Zor-El em The Flash, dirigido por Andy Muschietti.

O cômico é que, por 6 anos, a própria Melissa aguentava esses ataques e também era comparada com uma antecessora: Helen Slater, a primeira Supergirl dos cinemas, lá em 1984.

Quando seu filme saiu, ele foi um desastre de crítica e de público. A partir disso, criou-se um argumento de que filmes de super-heroínas não eram tão tentáveis quanto dos heróis masculinos - o que é cômico quando lembramos que na mesma época o próprio Superman estava fracassando com os filmes III e IV com Christopher Reeve.

O filme de 1987 do Homem de Aço conseguiu ser ainda pior recebido que o filme de 84 da Supergirl, e mesmo assim, em 2006, o herói recebeu uma segunda chance nos cinemas interpretado por Brandon Routh, enquanto a heroína só veio a aparecer de novo nos cinemas duas décadas depois.

O que todas tem em comum - Helen, Melissa, Sasha e agora Milly - é que seus trabalhos nesses filmes e série estão longe de ser a razão do fracasso dessas produções. A qualidade do produto final pouco tem a ver com o fato de terem um conteúdo sobre e/ou para mulheres. Seus problemas têm origem em buracos que estão muito mais em baixo.

O filme de 84, por exemplo, que pode ser considerado por alguns hoje em dia como um fruto divertido da tosquice campy dos anos 80, possui suas qualidades, como a própria Helen Slater, que estreava ali aos seus 19 anos como atriz, e a trilha de Jerry Goldsmith. O que o filme tem de incontestavelmente ruim é seu roteiro, escrito por dois homens, que é repleto de sexismos característicos da época.


Sasha Calle foi uma coadjuvante muito promissora em The Flash que não teve tempo algum para brilhar no papel e foi apenas sabotada por um filme de um personagem masculino que no fim não trabalhou bem com nada que se comprometeu. Nem o Batman (e olha que esse filme tem dois!).

E embora, sim, o novo filme da Supergirl seja fraco (como argumentamos na análise da nossa review), ele tem os mesmos defeitos do que dezenas de outros filmes do gênero protagonizado por heróis homens, como o Thor (O Mundo Sombrio, 2013), o Homem-Aranha (na duologia que nada tem de "Espetacular", de 2012 e 2014) , o já citado Flash e, principalmente, o próprio Superman com os longas já citados acima.

Milly Alcock pode demonstrar mais, não só em outros filmes desse universo, como em uma sequência que pode olhar para trás e tentar novamente corrigindo o que não deu certo. Não é assim que tantos filmes do gênero tem feito?

O Espetacular Homem-Aranha é um filme de qualidade igualmente questionável, mas, mesmo em seu lançamento em 2014, muitos conseguiriam defender que Andrew Garfield merecia uma terceira chance. Qual a diferença?

Embora seja um filme com muitos defeitos, principalmente como adaptação de um quadrinho tão importante para a personagem, é necessário que continuemos a combater discursos misóginos e que não confundamos críticas válidas, como à direção e a certas escolhas criativas tomadas, com ódio a produções de protagonismo feminino, discursos repletos de misoginia e boicotes.

Não foi a primeira vez que falamos sobre a diferença entre "crítica" e "chororô" aqui no blog, e conhecendo muito bem o mundo em que vivemos, infelizmente, não será a última.


Texto de Tiago Samps.
Revisado por Vander.



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